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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Onda, de Suzy Lee


Mais uma narrativa visual encantadora. A edição é da Cosac Naify, linda, à altura do trabalho da autora. Nesse livro, a sul-coreana Suzy Lee nos leva à beira-mar para acompanhar as descobertas de uma criança: o medo da assustadora onda, a curiosidade, o enfrentamento dela, o desdenhar (para ser surpreendida por um grande "caldo"). Eis uma belíssima metáfora para a infância, essa época de descobertas, feitas de quedas, traquinagens e sustos. À volta da menina, um grupo de gaivotas acompanha a menina no seu ritmo: enfrentam o mar com ela, temem o mar com ela, assustam-se com ela. Pássaro e criança: dois símbolos da liberdade, do desejo de voar, desejo de encontrar o horizonte.. que, vocês sabem, se esconde lá atrás... das ondas.

=)

domingo, 17 de janeiro de 2010

algumas palavras sobre literatura adultantil



O que é Literatura Infantil, Infanto-Juvenil? Pergunta difícil. A fronteira entre essa literatura e a adulta existe? Sim. E não.
Bem, é claro que para uma criança, um ser em formação, não faz sentido (geralmente) dar a ela a Odisséia, de Homero, ou quem sabe um romance de Flaubert ou Stendhal. São leituras para adultos, seres já completamente formados fisica e psicologicamente, com experiência de vida, dispostos a refletir sobre suas próprias existências e concepções. O oposto, porém, não ocorre. Uma boa história para crianças, agrada sempre aos adultos. O adulto se encanta com livros de Monteiro Lobato, Ana Maria Machado, Lygia Bojunga, Roger Mello, Marina Colassanti e tantos outros porque encontram nesses livros uma riqueza de ideias e e sentimentos tão grandes como nos livros de literatura adulta. A literatura, a obra literária, é universal: fala a todos os homens, independente de sua classe, religião ou idade. Assim, ao mesmo que existe essa fronteira, puramente lógica, entre literatura adulta e infanto-juvenil; ela também não existe. Outro caso que pode ser citado nessa discussão, é daquelas obras adultas, que logo caíram no gosto das crianças. Livros como As viagens de Gulliver e Robinson Crusoé são exemplos. Melhor mesmo é dizer que não existe tal fronteira.
E essa discussão nunca deixa de ser pertinente. Dia desses, uma obra reavivou-a em mim: "Avenida Paulista", da arquiteta Carla Caffé. A obra, lançada em 2009 numa co-edição da Cosac Naify com o SESC-SP, é belíssima e retrata, apenas com desenhos, a efervescente avenida paulistana. Com sua experiência de arquiteta, Caffé revisita os pontos turísticos, os prédios e esquinas famosos da avenida, num jogo de linhas, cores e curvas. Simplesmente lindo, o livro. Nos desenhos da autora, sente-se a harmonia desencontrada, oxímoro ideal para definir a paisagem dessa avenida e - why not? - de toda a metrópole paulistana. E este livro, traz em sua ficha catalográfica, a marcação "Literatura Infanto-Juvenil". E aí? Adulta? Infanto-Juvenil? Sim e sim. Obra Universal.
Pra resolver isso, é simples. Arrumem as fichas catalográficas. Literatura Adultantil. Pronto! :)


PS: aos curiosos, há um vídeo no youtube, em que Carla caffé fala um pouco mais sobre o livro Avenida Paulista.

PS: achei umas palavras muito legais do Mia Couto, famoso romancista moçambicano, que também se aventurou a escrever para os mais jovens. No prefácio do seu "O gato e o escuro" (que é uma história linda) , Couto diz: "Não sei se alguém pode fazer livros 'para' crianças. Na verdade, ninguém se apresenta como fazedor de livros 'para' adultos. O que me encanta no acto da escrita é surpreender tanto a escrita como a linguagem em estado de infância." Taí. ^^

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

"A toalha vermelha", de Fernando Vilela




"A toalha vermelha" é uma bela narrativa visual de Fernando Vilela. Apenas com ilustrações, o autor nos leva a uma viagem pelo planeta Terra. Um pescador brasileiro deixa cair uma toalha vermelha ao mar. Esta vai afundando, afundando, passa por corais, arraias, tubarões, adentra a um canal, cruza com submarinos, mergulhadores, peixes, baleias´, até chegar ao outro lado do mundo. O mar da China com seus pescadores. Toda essa viagem é contada através das belas ilustrações de Vilela. Ao final, a toalha vai para num barco de pescadores chineses, servindo como bandeira. Um objeto que liga o pescador brasileiro, um homem, com o pescador chinês. Os homens estão ligados. Homens são todos iguais, espalhados por esse mundo. É o que me vem á cabeça quando leio tal narrativa.
Interessante reparar que esse livro nada tem de despretensioso. Ao final do livro, nos agradecimentos, Vilela diz : "agradeço ao amigo Nicolas Wahba, pelo apoio e pela ajuda na pesquisa; ao cinegrafista Lawrence Wahba e suas fantásticas e inspiradoras imagens submarinas; à querida tia Maria Dulce P. V. Tanimoto, pelos cálculos de latitude e longitude para acertarmos a trajetória da toalha sobre a Terra [...] Por tais palavras, podemos notar que há uma pesquisa por trás de uma simples história visual.
E essa história é lindíssima, como são as narrativas visuais feitas por artistas competentes como Vilela, Roger Mello, Juarez Machado, Ângela Lago entre outros. O que é curioso em "A toalha vermelha" é que trata-se de mais uma história circular, em que a primeira e a última ilustração são iguais: um ciclo. Esse esquema tem se repetido. Livros ótimos como "Cena de Rua" (Angela Lago) e "Ida e Volta" (do pioneiro Juarez Machado) também apresentam esse esquema. Mas isso não significa que não seja criativa. Muito pelo contrário. Cada história tem as suas particularidades e são muito diferentes.
Destaca-se também o bom projeto gráfico da editora Brinque-Book. Na capa tem-se o título da obra, "a toalha vermelha", e na contra-capa, o mesmo título, mas em chinês. Com isso, a edição brinca com o texto, fazendo a mesma viagem que a tolha vermelha. Esse detalhe que parece pequeno, tem ganhado cada vez mais força: nos livros infanto-juvenis, um bom projeto gráfico é fundamental, pois ele soma-se ao texto, enriquecendo a leitura.
Para adultos e crianças, esse "a toalha vermelha" é um livro altamente recomendável. Boa leitura e boa viagem.